Reaprender a ensinar (Editorial Folha)

11/08/2009

Ênfase em didática, programas estruturados, supervisão e combate à rotatividade são cruciais para renovar a educação

A ENTREVISTA do economista Martin Carnoy publicada ontem nesta Folha chamou a atenção para uma das maiores dificuldades no esforço nacional pela melhora da educação básica: a formação dos professores brasileiros e as redes públicas de ensino dão pouca prioridade para a didática. Em outras palavras, os mestres aprendem mais na faculdade sobre teorias pedagógicas e menos sobre o que fazer na sala de aula -e como.
O pesquisador da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, baseia suas recomendações num estudo aprofundado da bem-sucedida educação cubana. Ele combinou as ferramentas da estatística mais abrangente com os detalhes das pesquisas qualitativas. Seu grupo também comparou as práticas educacionais cubanas com as de escolas brasileiras e chilenas, que têm desempenhos piores.
No Brasil, não foi só a falta de ênfase em “coaching” (treinamento prático) que ficou evidente. Há pelo menos quatro fatores de deficiência concorrendo para que a ação dos professores seja ineficaz a ponto de condenar alunos brasileiros às últimas colocações no exame internacional de aprendizagem Pisa, organizado pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). São eles: didática, programação, supervisão e permanência na escola.
Além de treinamento didático, os mestres precisam ter clareza sobre o conteúdo que devem ensinar, e quando. É o segundo fator. Em alguns sistemas públicos, como o do Estado de São Paulo, a carência começou a ser resolvida com a edição de guias curriculares, que organizam a matéria numa sequência pensada para favorecer a assimilação.
De nada adiantam os guias, contudo, sem o terceiro componente, supervisão e controle sobre o cumprimento da programação. São atividades quase desconhecidas no ensino oficial. Há Estados em que o cargo de supervisor nem sequer existe.
Onde há supervisores, por outro lado, eles raramente visitam as escolas e menos ainda as salas de aula, para inteirar-se do que de fato acontece nelas. Ficam imersos em atividades burocráticas ou prisioneiros de uma cultura que privilegia o controle sobre as escolas privadas, justamente aquelas que menos precisam de supervisão.
O quarto e último item dessa receita para o fracasso pedagógico está na alta rotatividade docente. Professores precisam permanecer mais numa escola, numa série e numa disciplina, além de faltar menos, para ter tempo de se aperfeiçoar e familiarizar com a escola e sua comunidade.
No Estado de São Paulo, sucessivas administrações peessedebistas, ao longo de 14 anos, foram incapazes de acabar com o despropósito de ter até 40% dos mestres solicitando mudança de escola a cada ano. Só agora, com o novo sistema de progressão salarial anunciado, a permanência no corpo docente da mesma escola passa a ser critério para recebimento do incentivo, ao lado de assiduidade e desempenho em provas.

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