SOLUÇÕES DIGITAIS – Revista Trip

Não é só de laptops que se faz uma sala de aula realmente moderna. Mais do que enfeitá-la com ferramentas, o principal é cuidar direito de quem vai usá-las.

Por André Caramuru Aubert*

“Compare uma sala de aula de cirurgia de séculos atrás com um centro cirúrgico atual. Você verá que as mudanças são gigantescas. Agora, faça a mesma comparação com uma sala de aula, e você perceberá que as mudanças são mínimas. Aqui, os anciões lousa e giz ainda reinam. Essa imagem é usada por Seymour Papert – discípulo de Jean Piaget e o principal guru da educação digital -, na abertura do livro A Máquina das Crianças. A tese dele é que o ambiente educacional – que deveria ser um espaço de vanguarda, ousadia e criatividade – é, na verdade, um dos mais conservadores que existem. Difícil discordar.

De Papert (que atualmente se recupera de um grave atropelamento no Vietnã, no fim do ano passado) e seus colegas da MedialLab, do MIT, vieram algumas das principais contribuições ao uso da tecnologia na educação, a mais recente delas na forma do ‘notebook de cem dólares’, trombeteada por Nicholas Negroponte nos quatro cantos do planeta., Brasil incluído. Mas existe também o outro lado da história, que é a mitificação da tecnologia como solução para todos os males. Basta pôr um computador na sala de aula e pronto: resolvemos todos os problemas da educação. Afinal, aí está a internet, armazenando praticamente todo o conhecimento acumulado pela humanidade em milhares de anos, tudo de graça, a um clique de distância de qualquer pessoa. Dá para comparar com a pobre biblioteca da escola? Aí estão o e-mail, o chat, a voz sobre IP, que permitem comunicação fácil e barata com qualquer pessoa em qualquer lugar. Parecem infinitos os meios de que dispomos, hoje, para obter informação e conhecimento.

Só que nem tudo é festa. Em primeiro lugar, a tecnologia da educação é frequentemente confundida com a bobagem de ensinar a usar Windows e Office. Além disso, deixe um adolescente pesquisando solto na internet e você terá um trabalho de escola feito em minutos, provavelmente uma obra-prima do ‘copiar e colar’ – exibindo terrível mistura de boas idéias com as maiores asneiras, obtidas sem critérios em fontes não confiáveis. Acho que não está na hora, ainda, de matarmos o professor.

CTRL + C, CTRL + V

Tive um ‘curso eletrônico’ de inglês, quando era criança, lá nos longínquos anos 70, em que respondia a perguntas apertando com uma ‘caneta digital’ um gabarito prateado. As respostas certas acendiam a luz verde, e as erradas, a vermelha. Quem já nasceu tendo os computadores e a internet como parte do mundo natural mão pode imaginar como aquilo era mágico, desde o cheiro de coisa eletrônica misturado ao isopor da caixa até a ‘inteligência’ que existia oculta ali dentro. O que não quer dizer que eu tinha aprendido qualquer coisa de inglês com aquilo. Nada.

Ora, tecnologia é ferramenta. É tudo isso e é apenas isso. Se o professor for ruim, não vai ajudar muito. Assim como, num centro cirúrgico, os pacientes não serão salvos de médicos incompetentes, por mais tecnologia que exista ali. Mas, se o profissional for bom, a tecnologia pode fazer diferença. Então, a gente devia parar de hipocrisia e discutir o que importa: o salário, a formação e, principalmente, a felicidade dos professores. Porque, se os professores trabalharem valorizados e felizes, tudo andará melhor. Então a tecnologia poderá ocupar o lugar que merece, ao lado (e não em vez) da lousa, do giz e dos livros.”

 

*André Caramuru Aubert, 45, é historiador, cria software móvel e nunca usou chapéu de burro nem ajoelhou no milho.

 

FONTE: REVISTA TRIP, Ano 20, Julho 2007, n. 157, p. 58

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